Um levantamento do Instituto Update sobre 12 candidaturas à Presidência da República mostra que propostas dirigidas às mulheres estão presentes em diferentes campos políticos e se concentram principalmente em quatro temas: violência, saúde, cuidado e autonomia econômica. Para o leitor, isso indica que os programas eleitorais tendem a tratar mulheres mais como destinatárias de medidas específicas do que como sujeitos com voz em espaços de decisão.
A análise considerou apenas propostas explicitamente relacionadas às mulheres; políticas universais de segurança, emprego, saúde, educação ou transporte não foram contabilizadas automaticamente como políticas para mulheres. O estudo avalia também o grau de detalhamento das propostas, apontando que referências a temas nem sempre vêm acompanhadas de metas, instrumentos, prazos ou articulação com políticas já existentes.
“Os programas reconhecem problemas que afetam diretamente as mulheres, mas avançam menos quando se trata de incorporá-las como sujeitos de decisão e de pensar sua experiência cotidiana de forma mais ampla”, afirmou Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update.
Principais achados
- 12 candidaturas: foram analisados os planos de 12 candidaturas à Presidência.
- 75% (9 de 12): nove dos 12 planos têm propostas explícitas sobre violência contra mulheres, feminicídio ou proteção às vítimas.
- 58% (7 de 12): sete dos 12 planos relacionam de maneira explícita creches ou políticas de cuidado à vida econômica e social das mulheres.
- 58% (7 de 12): sete dos 12 planos apresentam propostas específicas relacionadas à autonomia econômica (trabalho, renda, crédito, empreendedorismo ou independência econômica); em cinco deles aparece também a igualdade salarial entre homens e mulheres.
A pesquisa observa variações importantes na forma como cada candidato compõe propostas sobre autonomia: em alguns programas ela aparece associada a salário, direitos e proteção social; em outros, prevalecem medidas como acesso ao crédito, educação financeira e incentivo ao empreendedorismo.
Participação política e segurança
A conclusão do levantamento é de que as mulheres aparecem mais como destinatárias de políticas do que como participantes do poder. Na pesquisa Mulheres em Diálogo (2025), coordenada pelo mesmo instituto, 72% das entrevistadas concordam plenamente com o aumento da representação feminina em cargos políticos. Ainda assim, apenas um candidato apresentou uma proposta específica sobre participação político-eleitoral feminina, contemplando combate à violência política de gênero, formação de candidatas e lideranças e regras relacionadas ao financiamento partidário. Se o critério for ampliado para a presença de mulheres em espaços de liderança e decisão, um segundo candidato passa a contemplar o quesito, com propostas de incentivo à liderança feminina e o compromisso de indicar mulheres para vagas disponíveis no Supremo Tribunal Federal.
Quanto à segurança, o levantamento cita pesquisa realizada este ano pelo Instituto Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado: 70% das mulheres concordam total ou parcialmente que mulheres têm melhores ideias para a segurança pública. Outro levantamento, Mulheres, Polícia e Facções (2026), mostrou que 79% das mulheres sentem medo ao sair à noite, 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por insegurança e 31,4% deixaram de utilizar algum meio de transporte pelo mesmo motivo.
“Nos grupos qualitativos da pesquisa, quando as mulheres falam sobre o tema, aparecem questões como iluminação, transporte, prevenção da violência de gênero, cuidado com áreas abandonadas e fortalecimento das redes comunitárias. Ou seja, entram dimensões do cotidiano que muitas vezes ficam fora de uma agenda centrada apenas em policiamento e punição”, disse Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update.
O levantamento registra que, mesmo quando a violência contra as mulheres é tratada, os planos frequentemente a abordam a partir da categoria da vítima, com ênfases em redes de proteção, casas-abrigo, integração entre segurança, Justiça, saúde e assistência social, monitoramento eletrônico de agressores, medidas protetivas e endurecimento penal. Apenas um candidato relaciona explicitamente a segurança das mulheres à mobilidade e ao transporte urbano.
O Instituto Update concluiu que há convergência em torno da ideia de autonomia das mulheres, mas disputa sobre os caminhos para atingi-la, e que muitas pautas com forte apoio entre as mulheres aparecem pouco nos programas presidenciais quando o foco é participação política e presença em espaços de decisão.
