Especialistas no Seminário Brasil 2027 alertam que o novo governo terá de negociar permanentemente para garantir governabilidade. Alianças amplas e uma oposição mais forte podem atrasar reformas e políticas públicas.
Rio de Janeiro — O presidente Luiz Inácio Lula foi reeleito, em outubro, com 64 milhões de votos, o maior número absoluto da história das eleições presidenciais brasileiras. Apesar do resultado mais expressivo em relação a 2022, especialistas alertaram no Seminário Brasil 2027 – Desafios do Novo Ciclo, realizado no Rio de Janeiro, que a governabilidade do próximo mandato exigirá negociação permanente e construção de alianças amplas, o que pode afetar a formulação e a velocidade de implementação de políticas públicas que impactam diretamente os cidadãos.
O encontro reuniu pesquisadores que destacaram, entre os obstáculos, o avanço de representantes ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de partidos como Progressistas (PP) e Republicanos. Segundo o professor Lúcio Rennó, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a direita terá mais da metade das cadeiras no Congresso Nacional.
“Temos uma ideia de um presidente como líder de governo que ganha um mandato direto do país para implementar políticas públicas e funcionou assim por décadas, mas, nos últimos 15 anos, mais ou menos, uma série de reformas desequilibraram a balança em prol do legislativo e em detrimento do executivo”
O cientista político Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), avaliou que, além da dificuldade para formar maioria, o governo poderá enfrentar uma oposição disposta a obstruir sua agenda.
“A gente está falando de uma direita anti-Estado Democrático”
“É uma direita que não reconhece a legitimidade do adversário e deve operar em lógica de sabotagem”
Couto citou como exemplo a resistência de parlamentares à reforma tributária proposta pelo governo, que, segundo ele, foi rejeitada em parte apenas por ser uma iniciativa do Executivo, mesmo com apoio de representantes do campo bolsonarista como o senador Ciro Nogueira (PP).
Centrão e articulação interna do Executivo
Os especialistas apontaram que os partidos de centro, conhecidos como centrão, deverão ter papel estratégico para a formação de maioria, sobretudo na Câmara dos Deputados. A negociação com esses grupos será vista como fundamental para viabilizar a agenda do Executivo.
Um dos primeiros testes dessa articulação será a eleição para as presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro. O resultado dessa disputa poderá influenciar a capacidade do Executivo de negociar projetos e avançar prioridades, já que os presidentes das duas Casas definem a agenda legislativa, controlam processos como impeachment e influenciam nomeações e a alocação de emendas parlamentares.
Os especialistas também indicaram a necessidade de aprimorar a coordenação política dentro do próprio Executivo, para que integrantes do governo indicados por bancadas partidárias atuem em favor da agenda governamental no Congresso. Há expectativa de que projetos enviados pelo Executivo venham com negociações finas sobre o texto, incorporando interesses de diferentes grupos da base aliada.
Mobilização social e próximos passos
Além da articulação parlamentar, a mobilização da sociedade civil foi apontada como mecanismo para sustentar propostas e defender pautas democráticas. A professora Talita Tanscheit, do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, destacou a importância de manter vínculos com movimentos progressistas e ampliar espaços de participação via conselhos e conferências.
“O segundo turno trouxe de volta à cena um ator que não estava presente desde a pandemia de covid-19: a sociedade civil e os movimentos sociais”
“É a primeira experiência de protesto com o objetivo claro de colocar voto na urna. Em outros protestos, como no Chile e na Colômbia, a intenção era a de derrubar governos e suas agendas econômicas”
Os especialistas concluíram que, embora a eleição tenha sido relevante para a continuidade da democracia, a resistência de setores da direita poderá impor limites à agenda do governo. O próximo passo para acompanhar esse cenário será a eleição das presidências da Câmara e do Senado em fevereiro e a dinâmica de negociações em torno dos projetos enviados pelo Executivo.
