Levantamento da Fundacentro aponta 48% de insônia entre jornalistas — bem acima dos 28,7% em Natal e 38% em Maceió. Condições de trabalho e jornadas exaustivas comprometem a saúde mental e a qualidade da informação.
Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (14) aponta que as condições e as características do trabalho jornalístico no Brasil expõem profissionais a problemas de saúde mental, com impacto também na qualidade da informação que chega ao público. O levantamento destaca, entre outras comparações, que a prevalência de insônia entre jornalistas (48%) supera as médias registradas em levantamentos de vigilância do Ministério da Saúde, cujos extremos citados são 28,7% em Natal e 38% em Maceió.
O estudo, produzido pela Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho (Fundacentro) com apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), foi apresentado durante reunião do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional. As responsáveis pela pesquisa são Bruna Balarotti e Elaine Cristina Marqueze.
Para o leitor, a principal mudança apontada pelo levantamento é que condições de trabalho marcadas por assédio, sobrecarga, baixo apoio social e pressão podem reduzir a capacidade dos profissionais de produzir informação de qualidade, afetando o direito da sociedade ao acesso a notícias confiáveis.
Dados da pesquisa
- 257 — número de jornalistas brasileiros recrutados via amostragem para responder a questionário online.
- 48% — parcela que afirmou sofrer com sintomas de insônia.
- 36% — percentual que relatou episódios típicos de ansiedade.
- 50% — proporção que disse enfrentar quadro de depressão; entre esses, 9% apontaram sintomas de depressão severa e 16% extremamente severa.
- 21,5% — participantes que relataram consumo de bebidas alcoólicas em padrões compatíveis com uso de risco (18,7%) ou nocivo (1,6%); 1,2% indicaram provável dependência.
- 26% a 37% — prevalência reportada de assédio moral no trabalho, segundo diferentes critérios aplicados.
- 30% — percentual que apontou ocorrência de cyberbullying.
- 61% — entrevistados que afirmaram receber baixo apoio social no ambiente de trabalho.
As autoras observam que o dinamismo da atividade jornalística implica estresse e exposição a riscos psicossociais. Segundo Bruna Balarotti e Elaine Cristina Marqueze, a combinação de baixas condições de controle sobre as atividades, alta demanda e insuficiente apoio social pode gerar ou agravar problemas de saúde mental e afetar a satisfação no trabalho.
“A prevalência de assédio moral no trabalho, variando de 26% a 37%, e de cyberbullying (30%), representam um dos achados mais críticos deste estudo”, sustentam as autoras do relatório da pesquisa.
O relatório também relaciona sintomas elevados de estresse, ansiedade, depressão e insônia ao quadro de violência psicossocial sofrido por parcela substancial dos profissionais, tanto no ambiente físico quanto no digital.
“Os dados evidenciam um cenário preocupante, marcado por altas taxas de estresse, ansiedade, depressão, insônia, assédio moral e violência digital. Além disso, revelam um ambiente de trabalho caracterizado por altas demandas, baixo controle sobre as atividades e insuficiente apoio social. Esses elementos não apenas afetam a saúde dos profissionais, mas também impactam a qualidade da informação produzida e, consequentemente, o próprio direito da sociedade à informação”,
— declaração atribuída à presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas, Samira de Castro Cunha.
A pesquisa indica a urgência de atuação por parte de empregadores, entidades de classe e formuladores de políticas públicas para promover mudanças nas condições de trabalho. O próximo passo anunciado pelas autoras foi apresentar os resultados a instâncias que discutem políticas de comunicação e saúde ocupacional, buscando medidas que reduzam a exposição a riscos psicossociais e melhorem o ambiente de trabalho para os profissionais da imprensa.
