Estudo mostra que mais de 2,7 mil peixes de água doce vivem na Bacia Amazônica, com cerca de 65% endêmicos. Proteger essas populações altera a agenda para gestores, pescadores e comunidades ribeirinhas.
Em Belterra e em toda a Bacia Amazônica, mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce convivem na mesma bacia — cerca de 15% de todas as espécies conhecidas no mundo — e aproximadamente dois terços dessas espécies são encontradas exclusivamente na região. O dado central do novo relatório é que a conservação dessas populações pode evitar perdas em larga escala, o que muda a agenda para gestores, pescadores e comunidades ribeirinhas, que dependem diretamente dos recursos e serviços prestados pelos rios.
Principais dados e evidências
O levantamento é a quarta edição do relatório que reuniu contribuições de mais de 50 especialistas de 30 organizações. Segundo o estudo, a conectividade fluvial é essencial para processos ecológicos: a dourada é citada por realizar a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada, com um único indivíduo percorrendo mais de 11 mil quilômetros durante seu ciclo de vida, conectando cabeceiras próximas aos Andes ao estuário do Amazonas. Quando essas conexões são interrompidas, como ocorreu no rio Madeira após a construção de barragens, rotas migratórias foram bloqueadas, contribuindo para a redução dos estoques de peixes e para o desaparecimento de uma atividade pesqueira histórica na região da Cachoeira do Teotônio.
O relatório também destaca lacunas no conhecimento sobre as espécies amazônicas: a Lista Vermelha da IUCN registra 144 espécies ameaçadas na região e outras 334 classificadas como Dados Insuficientes. Entre as pressões combinadas estão hidrelétricas, desmatamento, poluição, pesca excessiva e mudanças climáticas. Projeções reunidas no estudo indicam que a descarga anual dos rios pode diminuir mais de 40% em algumas áreas importantes, como as cabeceiras do Madeira, com efeitos sobre reprodução, migração e qualidade da água.
O garimpo e a contaminação por mercúrio também são ressaltados: a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões humanas de mercúrio na América do Sul, e o consumo de pescado é apontado como a principal via de exposição humana ao contaminante na Amazônia. Quanto à economia vinculada à pesca, o relatório informa que pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente e que a pesca ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares por ano, sustentando milhares de famílias. Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa por dia.
Função ecológica e saberes locais
O estudo combina evidências científicas com conhecimento ecológico tradicional e enfatiza o papel dos peixes na manutenção dos ecossistemas: espécies como tambaquis, pacus e matrinxãs entram em áreas de floresta alagada para se alimentar de frutos e dispersar sementes, e outras espécies transportam nutrientes entre ambientes aquáticos e terrestres. A redução dessas populações pode provocar efeitos em cadeia sobre a vegetação e sobre predadores como botos, ariranhas e aves.
“Em todo o mundo, os esforços de conservação estão cada vez mais voltados à restauração dos ecossistemas depois que os danos já ocorreram. A Amazônia oferece uma oportunidade diferente: proteger um sistema de água doce de importância global enquanto ele ainda está em pleno funcionamento”,
Afirma a cientista identificada como autora principal do relatório ao explicar a necessidade de intensificar ações antes que sejam necessários processos de restauração mais complexos e caros.
“Para os povos indígenas, os peixes não são simplesmente um recurso. Eles fazem parte da nossa identidade, dos nossos sistemas alimentares, das nossas histórias e da nossa relação com os rios”,
Declara a coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), destacando que práticas locais de governança contribuem para proteger rios e manter conectividade.
Para quem interessa e próximos passos
O conteúdo do relatório interessa a gestores públicos, pesquisadores, comunidades ribeirinhas, pescadores artesanais, associações comunitárias e formuladores de políticas que lidam com segurança alimentar, saúde pública e conservação. O estudo aponta a necessidade de ampliar monitoramento, fortalecer colaboração transfronteiriça e priorizar ações de conservação para evitar a degradação que exigiria restaurações mais caras no futuro.
Como próximo passo, o relatório recomenda intensificar ações de conservação e integração entre ciência e saberes locais para manter a conectividade dos rios e reduzir pressões como barragens, desmatamento, poluição e garimpo, além de aumentar o monitoramento de espécies classificadas como Dados Insuficientes.
