Pesquisadoras dizem que a floresta recicla umidade do oceano e espalha vapor que vira chuva pelo continente. A degradação pode reduzir a oferta de água, afetando abastecimento e lavoura em cidades como Bogotá e Quito.
A Amazônia sustenta um ciclo atmosférico que garante água para milhões de pessoas na América do Sul, e a sua degradação pode reduzir essa oferta hidrológica, afetando o abastecimento de cidades como Bogotá e Quito e a agricultura em várias regiões.
Pesquisadoras que estudam o bioma explicam que a umidade proveniente do oceano cai em forma de chuva sobre a floresta; as árvores absorvem água do solo e a liberam de volta à atmosfera em vapor; o vento espalha esse vapor pelo continente, provocando chuva em diversas áreas. Uma árvore adulta na Amazônia pode liberar para a atmosfera de 200 a 300 litros de água todos os dias.
As cientistas destacam também que, em conjunto, as árvores formam um sistema único: ‘‘imaginem 400 bilhões delas trabalhando juntas todos os dias. Se pudéssemos tornar essa umidade possível, veríamos rios gigantes voando no céu. É o que nós cientistas chamamos de rios voadores’’, explicaram em evento recente.
Evidências, locais e causas
Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, lembrou que o bioma é a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes e carbono em níveis local, regional e global, e que essa estrutura está sendo afetada por atividades humanas. Ela citou mineração, narcotráfico, desmatamento e queimadas como fatores que têm comprometido a conectividade dos ecossistemas amazônicos.
“Em outras palavras, a Amazônia sustenta a vida, não só na região amazônica, mas no planeta como um todo.”
O painel reúne mais de 350 cientistas. As pesquisadoras participaram da última edição do TEDxAmazonia, realizada no final de agosto, no Equador.
Medidas e impactos observados
Julia Valentim Tavares está medindo efeitos climáticos a partir de árvores na borda sul da Amazônia, o chamado arco do desmatamento, onde, segundo ela, o volume de chuvas já diminuiu e a temperatura aumentou na última década. A pesquisadora estuda por quanto tempo essas árvores resistem às secas antes que suas estruturas internas se danifiquem.
“Se o solo tem água, essa corda permanece intacta. Numa estação seca, o solo deixa de ter água e essa corda é tensionada. A atmosfera puxa para cima, o solo puxa para baixo, até a hora que essa corda se rompe. Se isso acontecer muitas vezes, em várias partes da árvore, essa árvore começa a literalmente morrer de sede.”
Há evidências de que o desmatamento na Amazônia brasileira resulta em menos chuva em regiões do Brasil e da Bolívia; em áreas desmatadas, a temperatura tem aumentado e as épocas de seca têm se tornado mais intensas e prolongadas.
Consequências recentes e respostas propostas
Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca de sua história, por consequência do El Niño, e cerca de 88% da bacia amazônica sentiu os efeitos daquele evento. A seca daquele ano levou ao desabastecimento de água em Bogotá, capital da Colômbia, e a cortes no fornecimento de energia elétrica em Quito, capital do Equador, por falta de água em sistemas que dependem de recursos hídricos conectados ao bioma.
“A pergunta que todos deveríamos estar fazendo é: de onde nasce a água de inúmeras cidades latinoamericanas? De onde nasce a água que usamos na agricultura, pecuária, indústria, produção de alimentos?”
As pesquisadoras alertam que a previsão de um super El Niño para este ano é motivo de preocupação, porque, em cenário de secas repetidas e queimadas, a floresta pode passar de sumidouro a emissor de carbono, agravando o aquecimento global. Elas defendem como caminhos a diminuição drástica das emissões de gases de efeito estufa, a substituição de combustíveis fósseis por fontes menos poluentes de energia, o investimento na conectividade do bioma e a restauração de áreas degradadas.
O próximo passo na agenda científica e política, segundo as pesquisadoras, será ampliar o monitoramento do arco do desmatamento, avaliar os limites de resistência das árvores e articular políticas de restauração e redução de emissões que protejam a função hídrica da Amazônia.
