No Dia da Amazônia, especialistas pedem investimentos para recuperar áreas degradadas em terras indígenas. A restauração deve incluir prioridades culturais, alimentares e gestão local, diz diagnóstico TerraClass 2022.
No Dia da Amazônia, comemorado neste sábado (5), especialistas destacam a urgência de investimento na restauração de terras degradadas em territórios indígenas e afirmam que a ação precisa ir além do plantio de árvores, incorporando prioridades culturais, alimentares e de gestão local. Para os moradores e gestores desses territórios, isso pode significar mudança nas prioridades de projetos e no direcionamento de recursos públicos e privados.
Dados concretos sobre áreas degradadas e potencial de restauração
O diagnóstico com base no TerraClass de 2022 indica que, dentro das terras indígenas da Amazônia, existem 952,3 mil hectares de áreas degradadas, predominantemente ocupadas por pastagens. Outros usos identificados foram agricultura e mineração, e há ainda extensas áreas de vegetação secundária que representam potencial de recuperação.
- 952,3 mil hectares — áreas degradadas (predominantemente pastagens)
- 24,4 mil hectares — destinados à agricultura
- 18,9 mil hectares — destinados à mineração
- 840,5 mil hectares — vegetação secundária
- 1,79 milhão de hectares — potencial estimado de restauração somando áreas degradadas e vegetação secundária
Apesar das pressões, as terras indígenas continuam entre as áreas mais conservadas do país: o Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas, divulgado em 2026, aponta que apenas 1,7% de toda a perda de vegetação nativa registrada no Brasil entre 2019 e 2025 ocorreu dentro de terras indígenas.
Definição de restauração e participação indígena
A indígena do povo Kaingang e especialista da organização citada no material, Diana Nascimento, afirma que métricas puramente areais não são suficientes para medir o sucesso de iniciativas de restauração; é necessária a participação ativa de quem vive no território para definir prioridades e espécies a serem recuperadas.
Quando os povos indígenas assumem o protagonismo da restauração, o território deixa de ser visto apenas como uma área onde precisamos recuperar vegetação e passa a ser entendido a partir de sua relação com as pessoas, a cultura, a alimentação, os conhecimentos tradicionais e os modos de vida.
Não se trata apenas de quantos hectares foram restaurados ou quantas árvores foram plantadas, mas de entender quais espécies são importantes para aquele povo, quais alimentos e conhecimentos precisam ser recuperados, quais áreas são prioritárias e o porquê, e ainda como essa restauração pode contribuir para fortalecer a gestão e a autonomia do território.
Ferramenta de apoio à priorização
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) desenvolveu um sistema integrado de informações para apoiar decisões sobre conservação e restauração em terras indígenas. A iniciativa reúne múltiplas camadas de dados e foi desenvolvida em parceria com organizações e programas de cooperação internacional.
Entre as variáveis que o sistema permite combinar estão:
- Degradação
- Segurança hídrica
- Biodiversidade
- Mudanças climáticas
- Governança territorial
- Sustentabilidade
- Educação
- Saúde
Segundo Guillermo Florez Montero, líder de Ciência de Dados da organização mencionada, a ferramenta usa metodologia de análise multicritério em que o usuário seleciona variáveis e atribui pesos para construir um índice comparativo que indica quais territórios podem merecer maior atenção conforme objetivos específicos.
Podemos considerar áreas localizadas em regiões com maior insegurança hídrica, a partir do índice de segurança hídrica, ou mais ameaçadas pelo fogo, outro critério presente no sistema. Dessa forma, conseguimos construir modelos customizados.
O modelo pode indicar uma terra indígena específica para a implementação de determinado projeto. Mas, se a liderança não quiser, não estiver interessada ou se a iniciativa não estiver entre as prioridades da gestão daquele território, isso deverá ser respeitado.
Quem interessa e próximos passos
O tema interessa a líderes indígenas, órgãos de governança territorial, gestores públicos, organizações da sociedade civil e potenciais financiadores de projetos de restauração. A ferramenta da Funai foi concebida para ser um suporte técnico à tomada de decisão, sem substituir a autoridade e as prioridades definidas pelas comunidades.
Em esfera nacional, o debate ganha maior relevância enquanto o Brasil amplia metas de recuperação de áreas degradadas: durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), o país apresentou o compromisso de restaurar mais de 163 mil quilômetros quadrados até 2030, parte do qual deverá alcançar territórios indígenas. O próximo passo será a articulação entre recursos disponíveis e a aceitação e priorização das ações pelas próprias comunidades indígenas.
