Relatórios da PF mostram mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro com pedidos de recursos e encontros sobre o financiamento do filme. Os documentos detalham repasses e motivam busca por registros financeiros.
Relatórios da Polícia Federal (PF) sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, detalham mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e apontam pedidos de recursos, repasses e encontros que integram a investigação. Para o leitor, os documentos esclarecem parte da tramitação dos valores e das comunicações entre envolvidos, indicando por que a Polícia Federal considera importantes novos documentos societários e financeiros.
Mensagens, pedidos e encontros
Segundo a PF, Flávio solicitou R$ 131 milhões a Vorcaro para a produção do filme, dos quais R$ 60 milhões teriam sido pagos. O material da investigação registra comunicações diretas e possíveis visitas presenciais entre o senador e o banqueiro.
Em 20/08/2025, a PF registra a primeira sequência de mensagens diretas entre os dois:
“21 pode ser”
Segundo o relatório, essa mensagem foi enviada por Vorcaro.
“Blz”
Em seguida, a mensagem de resposta foi atribuída a Flávio, que também teria enviado uma figurinha com imagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O relatório registra ainda reações como “Kkk” e “Boa”, atribuídas ao banqueiro, e a resposta do senador: “A caminho”. A PF conclui que “isso indica que pode ter ocorrido uma reunião presencial entre os dois no dia 20/08/2025”.
Outras reuniões são apontadas pela investigação: em setembro, o intermediário Thiago Miranda teria informado Vorcaro que Flávio desejava conversar pessoalmente sobre o filme; em outubro, Flávio teria convidado o banqueiro para um jantar com a equipe da produção, marcado para 6 de novembro.
Preocupação com parcelas e diálogo gravado
Em 8 de setembro de 2025, o relatório registra que Flávio voltou a procurar Vorcaro por conta de parcelas atrasadas. Em áudio transcrito nos autos, o senador expressou apreensão sobre o impacto dos atrasos na produção.
“É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né? Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim, né?”
O relatório também registra tentativas de contato em 16/11 do ano anterior, um dia antes da deflagração da Operação Compliance Zero, quando Vorcaro teria respondido a uma ligação com “Fala irmãozão” e informado estar na igreja; na sequência, Flávio teria escrito: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
Transações internacionais e documentos pedidos
A PF investiga ainda o fluxo dos recursos. Um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) apontou pelo menos sete remessas da empresa Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, nos Estados Unidos, que somaram US$ 12,33 milhões. A PF registra que o fundo recebeu a primeira remessa de US$ 2 milhões em 13/02/2025.
O Havengate é administrado pelo advogado Paulo Calixto, apontado nos autos como aliado de Eduardo Bolsonaro, e a investigação avalia se os recursos enviados aos Estados Unidos poderiam ter relação com a permanência de Eduardo naquele país.
Em março de 2025, o intermediário Thiago Miranda teria enviado a Vorcaro uma captura de tela de conversa com Eduardo, na qual o ex-deputado tratava da transferência dos recursos para os EUA e estimava que remessas parceladas levariam cerca de seis meses.
Documentos sob disputa e desdobramentos
A PF requisitou documentos societários, contábeis, fiscais, bancários e contratuais da Go Up Entertainment LLC, produtora ligada ao filme. Michael Davis, que se identifica nos autos como sócio majoritário da empresa, teria informado que os documentos mantidos nos Estados Unidos não deveriam ser enviados diretamente às autoridades brasileiras sem observância dos mecanismos de cooperação jurídica internacional. A Polícia Federal considera esses documentos importantes para esclarecer a origem dos recursos, o trânsito dos valores e os beneficiários finais.
Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades relacionadas ao financiamento de Dark Horse. A investigação integra o conjunto de apurações relacionadas ao caso Banco Master e terá desdobramentos conforme a obtenção e análise de novos documentos e dados financeiros.
