Relatório pré-COP31 mostra que 0,1% mais ricos (≈8 milhões) concentram emissões desproporcionais. Eles se blindam dos impactos e, por vezes, lucram com desastres.
A parcela de 0,1% mais ricos da população mundial — cerca de 8 milhões de pessoas — gera mais poluição por carbono do que os 3,5 bilhões mais pobres, aponta relatório divulgado antes da conferência climática da ONU (COP31). O levantamento afirma que emissões desproporcionais dos super-ricos ampliam o colapso climático, enquanto esses mesmos grupos conseguem se proteger das consequências e, em alguns casos, lucrar com a destruição causada pelos desastres.
Segundo o relatório, a concentração de emissões entre os mais ricos tem efeitos diretos e desiguais: as pessoas em maior vulnerabilidade enfrentam os piores impactos, entre eles casas e plantações destruídas por enchentes ou incêndios, perda de meios de subsistência e fome. O documento também estima que uma pessoa pertencente aos 0,1% mais ricos contribuiu quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém entre os 50% mais pobres.
Dados principais e previsões
O estudo apresenta números contundentes sobre os efeitos das emissões concentradas: apenas um ano de emissões dos 1% mais ricos causará 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor. Do total projetado, 78% dessas mortes ocorrerão em países de renda baixa e média-baixa, embora esses países sejam responsáveis por apenas 8% das emissões globais.
As perdas econômicas atribuídas às emissões dos 1% mais ricos são estimadas em quase US$ 53 trilhões até 2050. O relatório também projeta que até 1 bilhão de pessoas poderão ser deslocadas pela crise climática até essa mesma data, com a maioria dos deslocados no Sul Global.
“A crise climática é frequentemente descrita como um desafio humano compartilhado. Mas não é. Aqueles que menos contribuíram para causá-la estão perdendo suas casas, suas colheitas e, cada vez mais, suas vidas.”
O documento indica ainda que os desastres climáticos estão sendo explorados para promover políticas que aprofundam desigualdades, como privatização da ação climática e serviços públicos, apropriação de terras, desregulamentação e benefícios fiscais a grupos poderosos.
“Enquanto isso, os super-ricos podem comprar sua segurança, refugiando-se em bunkers subterrâneos de alta tecnologia, contratando equipes privadas de combate a incêndios e adquirindo seguros privados, além de lucrarem ativamente com as consequências da poluição que geram.”
Empresas e índice Destroy & Rebuild
O novo índice Destroy & Rebuild identificou 217 empresas que, segundo o relatório, lucram simultaneamente com setores que impulsionam o colapso climático e com atividades de preparação, resposta, recuperação e reconstrução pós-desastres. O documento afirma que essas conexões corporativas alimentam um ciclo em que poluição, desastre, lucro e reconstrução se sucedem.
“Isso não é uma tragédia de destino compartilhado; é um crime de desigualdade extrema.”
Recomendações
- Tributação e cobrança: impostos sobre riqueza e renda, tributação sobre empresas de combustíveis fósseis e impostos punitivos sobre bens de luxo altamente poluentes, como jatos privados.
- Financiamento climático: aumentar o financiamento para o Sul Global, priorizando recursos públicos e doações em vez de empréstimos; o relatório pede que os recursos destinados à adaptação sejam triplicados até 2035.
- Infraestrutura e serviços públicos: garantir infraestrutura pública resiliente ao clima e fortalecer serviços públicos.
- Limitar lucros com desastres: reduzir o poder corporativo em resposta a emergências, reconstrução e sistemas alimentares durante crises.
O relatório também alerta para a necessidade de medidas que impeçam que desastres sirvam de justificativa para políticas que aprofundem a desigualdade, como apropriação de terras e desregulamentação.
Interessa a governantes, legisladores, setor privado, organizações da sociedade civil e populações mais vulneráveis acompanhar essas conclusões e avaliar medidas de regulação, tributação e financiamento que possam reduzir emissões e riscos. O documento foi divulgado antes da conferência climática da ONU (COP31), que será realizada na Turquia entre 9 e 20 de novembro de 2026, onde as propostas e dados deverão entrar na agenda das negociações internacionais.
