Em Caracaraí (RR), tecnologia e ações socioambientais preservam 14 mil ha e mantêm a atividade extrativista local. Projeto da ZEG com o proprietário avança na certificação e comercialização dos estoques de carbono.
No município de Caracaraí, em Roraima, um modelo de conservação uniu tecnologia de monitoramento e ações socioambientais para preservar uma área de 14 mil hectares e manter atividades extrativistas locais, ao mesmo tempo em que prepara a certificação e comercialização dos estoques de carbono.
O projeto e os números
A iniciativa foi implementada por uma empresa paulista de soluções para descarbonização, a ZEG (Zero Emission Goal), em parceria com o proprietário da área, um produtor rural de soja de Goiás. A propriedade passou por um processo de segurança jurídica, com remontagem da cadeia dominial, e o proprietário cedeu o direito real da superfície por 40 anos — prazo definido no contrato para a comercialização dos estoques de carbono.
No bioma amazônico, a reserva legal sobre os 14 mil hectares seria de 80%. Entretanto, o estado de Roraima concluiu o zoneamento ecológico-econômico em 2022, o que permite reduzir a reserva legal para 50% nas propriedades privadas do estado, de acordo com o Código Florestal (Lei 12.651/2012). O proprietário havia solicitado ao Estado autorização para supressão de parte da área para plantio de soja antes de aderir ao projeto.
Tecnologia, prevenção de incêndios e equipe
Como parte do modelo, a área recebeu uma torre de 60 metros com sistema de monitoramento que combina câmera e um programa de inteligência artificial. Segundo a empresa, a câmera realiza um giro de 360 graus em três minutos e gera relatórios que indicam a localização de focos de incêndio para acionamento da equipe de campo.
“A gente consegue saber em tempo recorde, dentro dos três minutos que a câmera leva para dar um giro de 360 graus. Chega para a gente um relatório, que mostra exatamente onde está acontecendo o foco de incêndio, e a gente coloca a equipe de campo para ir até o local”,
— Cineone Silva, coordenador de operações de campo da ZEG.
A equipe local é composta por 20 pessoas que passaram por treinamento na brigada de incêndio interna. Como o alcance da câmera vai além da área de conservação, duas áreas de assentamento vizinhas também receberam atualização de treinamento para brigadas comunitárias.
Impacto sobre as comunidades e economia local
Cerca de 36 famílias que vivem em assentamentos próximos mantiveram o extrativismo de subsistência, com a coleta de castanha-do-Pará. O projeto incluiu um programa socioambiental voltado às comunidades coletoras, capacitação e apoio para a constituição da Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar).
“Eu nasci e me criei nesse estado e, nos últimos 15 anos, eu vi a transformação com a entrada do agronegócio aqui na região, com o plantio de soja e mais veneno que a gente não tinha. Quando venderam esse lugar, a gente imaginou também que não ia mais poder coletar”,
— João Inácio Neto, morador e extrativista de castanha.
“Este ano, eu achei que melhorou bastante, na comparação com os outros anos. Eu achei mais organizado porque, antes, a gente vendia direto para o atravessador. Trabalhando junto, a gente já pode pensar em fazer uma venda melhor”,
— Eliane de Sena, extrativista e secretária da Agrocar.
Credibilidade no mercado de conservação e próximos passos
A iniciativa incluiu todo o processo de certificação dos estoques de carbono existentes. Segundo a empresa, a proposta buscou dar credibilidade a investidores após o colapso do mercado de conservação entre 2021 e 2023, quando houve relatórios com números de mitigação superestimados e comercialização de estoques sobrepostos a terras públicas.
“Foi quando a gente entendeu que tinha que entrar no mercado de conservação para fazer diferente”,
— Carlos Jacob, diretor-presidente da ZEG.
Para quem interessa: o projeto tem impacto direto em moradores de Caracaraí, assentados e extrativistas que dependem da castanha-do-Pará; interessa também a proprietários rurais com vegetação nativa e a investidores e agentes do mercado de carbono que buscam projetos com monitoramento, segurança jurídica e certificação. O acesso à iniciativa no caso concreto ocorreu por meio do acordo com o proprietário e da cessão do direito real da superfície por 40 anos, além do processo de certificação dos estoques de carbono, conforme descrito pela empresa.
O próximo passo previsto no projeto é a comercialização dos estoques de carbono dentro do prazo contratual e a manutenção das ações de monitoramento e prevenção de incêndio para garantir a permanência da floresta em pé e a continuidade das atividades extrativistas organizadas pela Agrocar.
