Negociações em Ulaanbaatar terminaram sem consenso sobre secas, dizem especialistas. Eles alertam que a postergação aumenta vulnerabilidade e dificulta financiamento e preparação ante riscos.
Ulaanbaatar — A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) terminou nesta sexta-feira (28) em Ulaanbaatar sem um acordo global específico para enfrentar secas, e especialistas disseram que a postergação tornará comunidades e economias mais vulneráveis aos efeitos de eventos extremos. Para o leitor, isso significa que medidas coordenadas de financiamento e antecipação de riscos continuarão sem uma base multilateral obrigatória nos próximos anos.
Representantes de organizações ambientais, sociedade civil e especialistas qualificados qualificaram o desfecho como frustrante. A principal decepção apontada foi o adiamento da decisão sobre um mecanismo multilateral específico para secas, que voltará a ser debatido apenas na próxima conferência, a COP18, prevista no Egito.
Posições e avaliações
O especialista do Instituto Escolhas, Rafael Giovanelli, afirmou que os governos falharam ao transferir para a COP18 novas discussões sobre o problema. Segundo ele, isso deixou um “sabor amargo” porque a conferência terminou sem decisões substantivas para lidar com as secas.
“Isso deixa um sabor amargo, porque a COP termina sem decisões substanciais para lidar com as secas”
Richard Lee, da organização Wetlands International, destacou que a falta de consenso ocorreu enquanto o número de desastres climáticos vinha aumentando globalmente. Ele citou eventos recentes para ilustrar a gravidade do problema.
“É inacreditável. Neste ano, a Europa sofre com uma seca histórica e os níveis de água caíram a patamares recordes no Rio Colorado, nos Estados Unidos. O chamado Super El Niño traz riscos de secas devastadoras do Sul da África até a Amazônia”, avaliou Richard Lee.
“Nós acreditávamos que esse cenário forçaria os governos de todo o mundo a agir. Estávamos errados. Adiar a decisão sobre as secas em mais dois anos custará mais do que tempo: comunidades e economias em todo o mundo vão pagar o preço”, complementou.
A especialista em políticas de água da WWF Global, Christine Colvin, avaliou que a ambição sobre a seca havia se esvaziado na COP17 e que não foi entregue um resultado significativo para sustentar ações futuras. Ela defendeu a necessidade de ação conjunta entre governos, sociedade civil e instituições financeiras, ao mesmo tempo em que alertou que iniciativas isoladas não seriam suficientes.
“É profundamente frustrante que a ambição sobre a seca tenha se esvaziado na COP17. Não foi entregue um resultado significativo e não temos uma base forte para que possamos construir ações”, afirmou Christine Colvin.
Propostas, valores e ferramentas lançadas
Durante a COP17, foram anunciadas iniciativas paralelas com objetivo de lidar com a seca, ainda que a negociação principal tenha sido adiada. Entre elas, destacam-se:
- Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF): primeira plataforma global de financiamento dedicada exclusivamente ao tema, criada pela UNCCD e por Luxemburgo, com apoio da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA). A iniciativa pretende mobilizar até US$ 400 milhões em recursos públicos e privados.
- Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO): entrada na segunda fase e apresentação do primeiro Índice de Resiliência à Seca (DRI), ferramenta destinada a ajudar países a avaliar sua capacidade de antecipar, preparar-se e adaptar-se aos períodos de escassez de água.
Os investimentos previstos pelo DRIF deveriam ser direcionados para áreas como:
- Segurança hídrica
- Agricultura sustentável
- Soluções baseadas na natureza
- Recuperação de terras
A quem interessa e próximos passos
O resultado da COP17 interessa especialmente a governos nacionais, comunidades rurais e urbanas vulneráveis, instituições financeiras e organizações que atuam em segurança hídrica, agricultura e recuperação de terras. A ausência de um acordo obrigatório significou que países mais vulneráveis continuarão a depender de instrumentos existentes, como fundos relacionados à degradação de terras, enquanto a definição de um mecanismo específico para secas foi transferida para negociações futuras na COP18, no Egito.
O próximo passo da história será a retomada do debate na COP18, quando os países deverão retornar às negociações sobre um mecanismo multilateral para secas. Enquanto isso, as iniciativas anunciadas na COP17, como o DRIF e o índice DRI, poderão prover recursos e ferramentas que alguns atores esperam usar para aumentar resiliência em nível nacional e local.
*O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.
