No Dia de Redução do Risco, especialistas pedem fim da 'cultura da tragédia' e mais investimentos em prevenção. Propõem mapeamento de áreas vulneráveis, alertas ampliados e soluções com a natureza.
Especialistas em conservação da natureza e adaptação climática recomendam abandonar a “cultura da tragédia” e investir em prevenção para reduzir os riscos de eventos extremos no Brasil. A orientação, destacada neste 13 de outubro, Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, aponta medidas que podem alterar a rotina de moradores e gestores ao priorizar mapeamento de áreas vulneráveis, ampliação de sistemas de alerta e integração da natureza ao planejamento urbano.
Medidas apontadas
Os especialistas detalham um conjunto de ações práticas para reduzir impactos de chuvas intensas, secas e ondas de calor. Entre as propostas estão:
- Mapear áreas vulneráveis — identificar locais de risco para orientar intervenções e ocupação do solo.
- Preparar serviços essenciais — capacitar hospitais, escolas, estradas e redes de abastecimento de água e energia para operar em condições adversas.
- Ampliar sistemas de alerta — aprimorar os mecanismos de aviso à população sobre riscos iminentes.
- Investir em infraestrutura verde — recuperação de áreas naturais, arborização urbana, preservação de rios e nascentes e ampliação de áreas permeáveis.
- Investir em engenharia — drenagem e contenção de encostas para reduzir deslizamentos e inundações.
Os especialistas destacam também a necessidade de monitoramento permanente e de investimentos que considerem os riscos climáticos já no planejamento de obras urbanas, para evitar que novos empreendimentos aumentem a vulnerabilidade das cidades.
“Isso mostra que ainda tratamos como surpresa riscos que já são conhecidos e recorrentes”, diz Rafael Loyola, integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e diretor da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).
“Precisamos abandonar a cultura da tragédia e adotar uma cultura de prevenção. Hoje, o Brasil gasta mais de três vezes com resposta e reconstrução do que com prevenção de desastres, nos níveis federal, estadual e municipal”, complementa.
Adaptação local e ferramentas disponíveis
A preparação para eventos extremos precisa considerar características e vulnerabilidades locais. As projeções para o segundo semestre de 2026, sob influência do El Niño, reforçam essa necessidade, segundo os especialistas.
“Ao contrário da mitigação, que tem foco na redução das emissões de gases de efeito estufa e pode ser feita em qualquer lugar do mundo, com efeitos positivos para todos, a adaptação exige ação local. É preciso olhar para cada território, mapeando riscos e vulnerabilidades.”
André Ferretti, gerente sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e integrante da RECN, afirma que a adaptação deve ser articulada entre setores como meio ambiente, saúde, educação, agropecuária e infraestrutura, com participação dos governos federal, estaduais e municipais, setores econômicos e sociedade.
Uma das ferramentas citadas é a plataforma Natureza ON, desenvolvida pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o MapBiomas e com tecnologia Google Cloud. A ferramenta permite consultar riscos de inundações, deslizamentos e indicadores de segurança hídrica em diferentes regiões do país, além de indicar Soluções Baseadas na Natureza que podem aumentar a resiliência dos territórios.
Soluções baseadas na natureza
Especialistas alertam para a relação entre supressão de vegetação, impermeabilização do solo e ocupação de rios e nascentes e o aumento da vulnerabilidade urbana. A recuperação de áreas verdes, a preservação de rios e nascentes, a criação de parques e a ampliação de áreas permeáveis são apontadas como medidas que reduzem riscos relacionados ao excesso de água e às altas temperaturas, controlam erosão e estabilizam encostas.
“São formas muito eficientes de lidar com os riscos associados ao excesso de água e às altas temperaturas, ao mesmo tempo em que geram benefícios para a qualidade de vida da população”, afirma Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de Projetos da Fundação Grupo Boticário e especialista em Soluções Baseadas na Natureza.
Juliana ressalta que, sem considerar os riscos e os impactos das mudanças do clima no planejamento das obras, parte dos investimentos urbanos pode, em vez de preparar as cidades, contribuir para ampliar sua vulnerabilidade a eventos extremos e aprofundar a injustiça climática.
Para quem interessa e próximos passos
As recomendações interessam a gestores municipais, estaduais e federais, setores econômicos, profissionais de saúde, educação e infraestrutura, além da sociedade civil que vive em áreas de risco. A orientação é articular ações entre esses atores, incorporar o risco climático ao planejamento urbano e ampliar o uso de Soluções Baseadas na Natureza.
O próximo passo apontado pelos especialistas é intensificar o mapeamento local de riscos, ampliar investimentos tanto em infraestrutura física quanto em infraestrutura natural e fortalecer sistemas de alerta e preparação de serviços essenciais, especialmente diante das projeções climáticas para o segundo semestre de 2026.
